Pular para o conteúdo
wefish

Técnica 7 min de leitura 1254 palavras

Como soltar o peixe vivo de verdade: o que acontece depois que ele some

Para soltar o peixe vivo, molhe as mãos antes de tocar nele, apoie pelo corpo e nunca pela guelra, mantenha o tempo fora da água abaixo de meio minuto e devolva com o peixe voltado contra a correnteza até ele sair sozinho. O muco que cobre a escama é a defesa dele contra infecção, e mão seca ou pano seco tiram esse muco. Quando o anzol é engolido fundo, corte a linha rente em vez de tentar tirar.

Redação WeFish Equipe editorial
Como soltar o peixe vivo de verdade: o que acontece depois que ele some, no WeFish
Imagem provisória do protótipo, por set.sj no Unsplash. Não retrata o assunto do artigo.

Existe uma diferença entre soltar o peixe e devolver o peixe vivo, e a distância entre as duas coisas é de poucos segundos de manuseio. O pescador vê o peixe sair nadando e considera a tarefa cumprida. O que acontece nas quarenta e oito horas seguintes acontece longe dos olhos dele.

Isso não é argumento para não soltar. Soltar bem feito tem taxa de sobrevivência alta, e o pesque e solte é o que permite que um mesmo trecho de rio sustente pescaria ano após ano. O ponto é que soltar mal feito dá ao pescador a consciência tranquila sem dar ao peixe a segunda chance.

Como soltar o peixe vivo, gesto por gesto

Do momento da fisgada até ele sumir

  1. Encurte a briga

    Linha subdimensionada prolonga a luta e exaure o peixe até um ponto do qual ele não se recupera. Usar equipamento proporcional à espécie não é conforto do pescador, é condição de sobrevivência do peixe. Briga longa é a primeira causa de mortalidade tardia.

  2. Molhe as mãos antes de tocar

    O muco que cobre a escama é a barreira contra fungo e bactéria. Mão seca, toalha seca e convés quente raspam esse muco, e é ali que a infecção entra depois. Mão molhada, luva de silicone molhada ou pano encharcado resolvem.

  3. Apoie pelo corpo, nunca pela guelra

    A guelra é tecido vascularizado e frágil, e dano ali é quase sempre fatal. Segure pela boca com apoio sob a barriga em peixe grande, ou com as duas mãos sob o corpo. Peixe pendurado só pela mandíbula sofre lesão de coluna pelo próprio peso.

  4. Conte os segundos fora da água

    Meio minuto é o limite prático, e trinta segundos passam mais rápido do que parece quando alguém está procurando o celular. Tenha a foto combinada antes de tirar o peixe da água: quem vai fotografar, de onde, e com a câmera já aberta.

  5. Tire o anzol com alicate, ou corte a linha

    Alicate de bico longo tira o anzol em segundos. Quando o anzol foi engolido fundo, não tente tirar: corte a linha rente. O anzol enferruja e é expelido, e o peixe tem mais chance com ele dentro do que com a hemorragia de uma remoção forçada.

  6. Devolva contra a correnteza e espere

    Segure o peixe na água, voltado contra a corrente, até ele reagir e sair sozinho. Em água parada, faça movimento leve para frente, nunca para trás: água entrando pela guelra ao contrário afoga o peixe. Soltar antes de ele reagir é devolver um peixe que vai afundar.

O equipamento que muda a conta

Escolhas que aumentam a sobrevivência
EscolhaPor quêCusto para o pescador
Anzol sem fisga, ou com a fisga amassadaSai muito mais rápido e causa lesão menorPerde alguns peixes por escape na briga
Anzol simples em vez de garateiaUm ponto de fixação em vez de três, e não fisga a guelraMenos pontos de fisgada em isca de superfície
Anzol circular na isca naturalFisga no canto da boca em vez de ser engolidoExige não ferrar, só recolher, que é contraintuitivo
Puçá de malha emborrachadaNão raspa o muco como a malha de náilonCusta mais que o puçá comum
Linha proporcional à espécieEncurta a briga e reduz a exaustãoNenhum, e ainda pega mais peixe

Nenhuma destas escolhas exige virar militante. Amassar a fisga com o alicate leva dois segundos e não custa nada.

Quando a soltura não é opcional

Boa parte do pesque e solte no Brasil é obrigação legal, não escolha. Espécies com restrição de captura, exemplares abaixo do tamanho mínimo e trechos de rio sob proteção específica exigem devolução, e a fiscalização autua quem não cumpre.

Há também a obrigação contratual: boa parte das operadoras amazônicas e pantaneiras trabalha em regime de soltura integral por contrato, e isso costuma estar escrito no pacote. Vale ler antes de viajar esperando levar peixe.

O peixe que você leva para casa também merece cuidado

Este artigo é sobre soltura, mas vale dizer: quem decide levar o peixe deve abatê-lo rápido em vez de deixá-lo agonizando no balde. Além de ser a coisa certa a fazer, peixe abatido rápido e resfriado na hora tem carne muito melhor. Sofrimento prolongado acidifica a carne e estraga o que você foi buscar.

O rio não é seu. Você pegou emprestado por um dia.

Dito de barrancoFolclore coletivo. Não atribuído a nenhuma pessoa em particular.

Perguntas

Dúvidas sobre como soltar o peixe vivo

Como soltar o peixe vivo quando ele engoliu o anzol?

Corte a linha o mais rente possível e devolva o peixe com o anzol dentro. Tentar remover um anzol engolido causa hemorragia interna e é muito mais letal que deixar. Anzóis de aço comum enferrujam e acabam sendo expelidos ou encapsulados. Por isso anzol niquelado barato é melhor que inox para quem solta.

Anzol sem fisga faz perder muito peixe?

Perde alguns, e menos do que a fama sugere. O que muda é a exigência de manter a linha sempre tensa durante a briga, porque qualquer folga deixa o anzol sair. Quem já pesca com linha tensa quase não nota diferença; quem pesca com folga nota muito.

Posso pesar o peixe antes de soltar?

Pode, com cuidado no método. Balança presa à boca pendura o peso inteiro na mandíbula e causa lesão em exemplares grandes. O certo é usar uma rede de pesagem ou um clipe com apoio sob o corpo. Mais simples ainda: meça o comprimento com a vara ao lado na foto e converta depois.

Peixe que sangrou tem chance?

Depende de onde. Sangramento leve na boca é comum e não costuma ser fatal. Sangramento pela guelra indica lesão em tecido vascularizado e a chance cai muito. Nesse caso, e se a captura for permitida, levar o peixe é mais honesto que devolver um animal que não vai sobreviver.

Transparência

De onde veio cada informação deste artigo

Cada linha diz o que aquela fonte sustenta no texto e quando foi consultada. Quando a base é prática de campo e não documento, está escrito que é.

  1. Fonte oficial

    Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul e governo de Mato Grosso, sobre o dourado

    Que existem espécies cuja soltura é obrigatória por norma, e não por escolha do pescador: o dourado nos dois estados do Pantanal é o caso mais conhecido.

    Consultada em

  2. Literatura técnica

    Literatura sobre mortalidade pós-soltura em pesca recreativa

    Os fatores que determinam a sobrevivência: duração da briga, tempo fora da água, local da fisgada e dano ao muco e à guelra.

    Consultada em

  3. Prática de campo

    Prática de operadoras de pesca esportiva no Pantanal e na Amazônia

    O protocolo de manuseio e o uso de puçá emborrachado e anzol simples.

    Consultada em

Passa adiante

Continue lendo

Outras dicas de pesca

Ver todas

No diretório

Páginas citadas neste artigo