Causos de pescador: a matemática do peixe que escapou
Causos de pescador são o folclore oral da pesca brasileira, e seguem regras reconhecíveis: o peixe cresce a cada nova narração, a culpa nunca é de quem conta, e o equipamento sempre falhou no momento decisivo. Não são mentiras no sentido comum, porque ninguém espera que sejam levadas ao pé da letra. São uma forma de contar que o dia valeu a pena mesmo sem foto.
Existe um acordo silencioso em todo barranco do Brasil. Quando alguém começa uma história com "você precisava ver o tamanho", ninguém pergunta se tinha balança. Não é ingenuidade. É que a pergunta estragaria a única parte boa de um dia em que o peixe escapou.
As histórias engraçadas de pesca não são acidente: a pesca é provavelmente o único esporte em que exagerar faz parte das regras, e em que todo mundo sabe que faz. O futebol tem árbitro. O tênis tem placar. A pesca tem um sujeito molhado dizendo que era deste tamanho, com os braços abertos um pouco mais do que estavam da última vez.
Não escapou não. Ele arrebentou. Tem diferença.
As três leis dos causos de pescador
Depois de ouvir algumas centenas, dá para notar que os causos não são aleatórios. Eles obedecem a uma estrutura, e a estrutura é sempre a mesma em Corumbá, em Barcelos e no pesqueiro de beira de estrada.
A gramática do causo
O peixe cresce, nunca encolhe
Este é o único movimento permitido. Um peixe pode passar de seis para oito quilos ao longo de um ano de narrações, e ninguém acha estranho. Mas nenhum peixe da história de ninguém jamais diminuiu, e isso é uma constante notável do folclore brasileiro.
A culpa é sempre de um terceiro elemento
O nó que estava bom. A linha que era nova. O anzol que veio com defeito de fábrica. O companheiro que demorou com a puçá. O motor que escolheu aquele momento. Nunca, em nenhuma versão registrada, a culpa foi de quem está contando.
Sempre havia uma testemunha, que não está presente
O compadre viu. O piloteiro viu. O pessoal do barco do lado viu. A testemunha é parte obrigatória do causo e é, por construção, inverificável. Quando ela aparece, curiosamente, se lembra de um peixe um pouco menor.
A tabela de conversão do barranco
Todo pescador experiente faz esta tradução automaticamente, sem perceber. Ela não serve para desmentir ninguém, serve para saber o que perguntar em seguida.
| O que se diz | O que costuma ter acontecido |
|---|---|
| Era uns dez quilos, fácil | Era um peixe bom. Ninguém pesou, porque ele não chegou ao barco. |
| A linha era nova | A linha era nova em algum momento da temporada passada. |
| Deu uma corrida de cinquenta metros | Deu uma corrida. A distância foi medida pelo susto, não pelo carretel. |
| Peguei um monte, mas soltei tudo | Soltou tudo mesmo. Essa parte quase sempre é verdade e merece respeito. |
| O local estava fraco hoje | O local estava do jeito de sempre. Quem estava fraco era a leitura de água. |
| Cheguei cedo, antes de todo mundo | Chegou depois do pessoal que chega cedo de verdade, que já tinha ido embora. |
Nenhuma linha desta tabela é acusação. Todas descrevem coisas que quem escreveu este artigo já fez, e mais de uma vez.
Se fosse mentira eu contava melhor.
As leis não escritas que todo mundo obedece
Além da gramática do causo, existe um código de conduta que ninguém combinou e que quase todo mundo segue. Quebrar qualquer um destes é o jeito mais rápido de não ser convidado para a próxima.
- Não se pergunta a coordenada exata de um ponto bom. Pergunta-se a região, e agradece-se.
- Quem furou a isca do outro por descuido repõe, e não se fala mais nisso.
- Não se fotografa o peixe do companheiro sem ele pedir.
- Quem pega o maior do dia paga o gelo da volta. A regra é inventada e é levada a sério.
- Silêncio no barco de manhã cedo não é mau humor. É respeito pelo horário.
- Ninguém corrige o tamanho do peixe alheio na frente de terceiros.
Por que o causo importa
Tem gente que trata o exagero do pescador como defeito de caráter. É uma leitura pobre. Quem volta sem peixe e sem história volta só sem peixe, e a história é o que faz o dia ter valido.
O causo também é o que mantém viva uma tradição oral que não está escrita em lugar nenhum. O nome de um ponto, o jeito de ler uma boca de baía, o ano da cheia grande: tudo isso viaja dentro de história contada, não dentro de manual. Se alguém exagera um pouco o tamanho do peixe pelo caminho, é um preço barato.
E, convenhamos, o peixe realmente era maior. Todo mundo ali viu.